BLOW UP e a Crise da reprodutibilidade técnica de Benjamin.

[Estudos Estéticos, PUC-Rio- 2012]


A partir do texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, do filósofo Walter Benjamin, analiso o filme “Blow Up – Depois daquele beijo” (por Michelangelo Antonioni), que tem relação com as ideias do filósofo, tanto em sua trama como na técnica de execução cinematográfica.


PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES:  segundo compreendido no trabalho de Benjamin

Citando Benjamin, “a obra de arte sempre foi reprodutível” , tanto como um sistema de ensinamento, como através de técnicas como a litogravura. Posteriormente, com a invenção da fotografia  “pela primeira vez no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora cabiam unicamente ao olho”. (A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica – pág 181) Esta mudança transformou a maneira de se fazer arte e se relacionar com ela, pois a reprodução surgia interligada à técnica. Hoje, uma obra não possui mais a unicidade de “aquela peça”, existe a captação, que pode ser sempre reproduzida e sempre será “original”.

Esse ponto é o que o autor chama de autenticidade, que está ligada à “aura” da obra de arte. Cada peça desenvolvida, seja de pintura ou escultura, seja de tema sacro ou profano, tem em comum o momento em que foi realizada, o que as torna únicas. Só existe uma produção autêntica, que nem mesmo o autor seria capaz de refazer, e qualquer obra que tente ser igual à original é uma cópia. Hoje, o conceito da “cópia” muda, pois todas as obras de arte feitas a partir da técnica de reprodução, são cópia e ainda assim são a original.

A  “aura”, aspecto restrito à arte única, agrega o valor de culto à obra, ligada ao ritual da realização da peça que não pode ser copiada. A arte aurática cumpre seu papel simplesmente ao existir, como as guardadas por um único dono, escondidas em igrejas e desenhos em cavernas, que possuem uma certa “magia” em sua existência.

No momento que a fotografia e cinema surgiram, todo o sentido de unicidade se perdeu, pois não havendo mais uma obra original, o objetivo se torna reproduzir, e assim expor ao mundo aquela arte. Com o cinema, o que importa é exibir o filme, não importando se o público está vendo “a primeira cópia” (o “original”) ou outras cópias, exceto se há diferenças de qualidade técnica ou até se há diferença de versão, como já ocorreu muitas vezes. 

Em minha opinião, seguindo essa linha de raciocínio exporta por Benjamin, acho que no caso da fotografia é diferente, pois durante boa parte de sua história, a “foto original” tinha valor próprio e era guardada como “mais autêntica” do que suas cópias. Por exemplo, a foto que era tirada num casamento e as cópias de fotos 3×4 para carteira.

Mas seguindo, a técnica em si esta ligada a reprodução, o equipamento é de mais alto custo que a arte manual, assim a própria lógica de relacionamento com o filme e a foto necessitam da disseminação para obter o retorno financeiro. Quanto mais pessoas virem aquela arte, melhor será. As transformações entre arte e humanidade são tão intensas que a forma do homem se relacionar com a arte muda. O valor de exposição desloca a prática do culto para a apreciação, entretenimento e estética, e esta volta a atingir uma dimensão coletiva, deixando seu lado solitário como havia ocorrido por exemplo da mudança da “narrativa” para o “romance”. Este fato evidencia, segundo Benjamin, que a reprodutibilidade técnica é na realidade a novidade de nosso tempo, a forma mais completa de darmos conta do que há de novo.

O deslocamento do valor de culto para o de exposição ocorre também devido a questões práticas de cada período, que era de uma forma na antiguidade e de outra atualmente. Por exemplo, a arte grega é hoje vista como algo eterno, de grande valor histórico e artístico; ora, suas obras eram realizados exatamente para alcançar a durabilidade, pois sem a técnica da reprodução o homem só poderia fazer um artefato como o que se propôs.

Atualmente, com as técnicas de reprodução, existem diversas chances de fazer e refazer cada produto imaginado, consequentemente o objetivo deixa de ser sua existência eterna, pelo contrário, surge a necessidade de demanda e até a noção de obsolescência programada.

Dois pontos importantes à serem observados é a diferença entre “eternidade” e “perfectibilidade”. Uma se liga à arte aurática, que tem uma única chance de se fazer algo, assim este deve ter uma ótima qualidade. E a outra à reprodutibilidade técnica, que pode haver tantas tentativas que se projeta a perfeição como uma meta.

O segundo ponto é uma importante intercessão com o filme “Blow up”, que trata justamente de algo aparentemente ruim levar ao crescimento. Foi devido à falta da técnica de reprodução, que os Gregos se tornaram um marco na história da arte.


BLOW-UP


A Intertextualidade

Blow Up: 

1. Eclodir, Rebentar, Acontecer

2. Ampliar (Fotografia)

3. Explodir (bomba)

4. Perder o controle; Perder a pose


O filme conta a história de um fotógrafo, Thomas (David Hemmings), que apesar de ser altamente reconhecido por seus trabalhos de moda, experimenta um grande vazio existencial, sentindo-se insatisfeito e desanimado com o cotidiano e com momentâneos espasmos de excitação. No próprio título já está clara a idéia discutida por Benjamin, que é a “ampliação”, a reprodução em extremo, movimento que ocorre na trajetória da arte e também no filme com a sequência de fotos que dão rumo ao enredo.

Na cena inicial, as figuras dos mímicos em festa pela cidade “blasé” já apontam o cenário da reprodutibilidade técnica, da produção em massa, da arte como imitação do real e entretenimento por ela motivado . Os personagens caricatos se vestem tão similares que na, multidão, mal se pode distingui um do outro. A atmosfera de felicidade do acontecimento proporciona o primeiro momento de alegria de nosso circunspecto protagonista. A arte hoje tem de fato esse papel de nos distrai, nos tirar da entediante realidade, e trazer a nossas vidas toda uma euforia que logo seguida se vai, deixando apenas questionamentos, novamente o tédio e inquietação.



Outro ponto exibido logo de início, é a mobilidade da arte quando aparecem mímicos se movimentando pelos cantos da cidade e Thomas pernoitando fora de seu ambiente natural para criar suas fotografias. “A medida que a obra de arte se emancipa do seu uso cultual, aumentam as ocasiões para que elas sejam expostas” (pág. 187), não há mais a necessidade fixa da obra, esta pode circular pelo mundo e ser vista por todos. Até mesmo aquelas que tem a dimensão aurática, de certa forma já foram incorporadas por esta nova era, novos meios tecnológicos viabilizam a locomoção do homem ou até mesmo da arte. Acredito ser este o sentido dos mímicos nas cenas chaves: são figuras inicialmente ligadas ao teatro, agora circulando pelas ruas, e  que são personagens de um filme.

Na sequência, a vida do protagonista começa a ficar mais clara. No início, ele parecia pertencer à uma camada mais miserável, mas agora é apresentado como um artista bem sucedido. A arte que antes era ligada à pobreza, a arte por amor, é invertida, apresentando um novo mundo como o de Thomas, em que dinheiro e reconhecimento são gerados e não necessariamente existe a paixão pelo trabalho. A reprodutibilidade técnica gera, como já dito, o aumento da demanda e vendas, há mais exemplares existentes, vistos e adquiridos. Esta contraposição fica ainda mais clara quando em seguida o personagem encontra seu companheiro de casa, um pintor de quadros, que não tem aparentemente tanto sucesso, indo além mais ao final do filme, quando uma das fotografias de Thomas é comparado como similar à tal pintura.



Esta análise não significa que a pintura foi posta como fracassada, e a fotografia como bem sucedida, ela fala simplesmente sobre dois pontos, o fato da primeira existir inicialmente para ficar “reclusa” enquanto a segunda existe para ser vista. Transformação muito ligada ao capitalismo, onde a obra com valor de culto, produzida para apenas existir, não gera dinheiro, e a obra com valor de exposição se liga à economia, tem necessidade monetária alta e assim gera capital.

Nos momentos seguintes o espectador observa impulsos do protagonista, ele não se prende a nada, nenhuma regra nem ordem de vida, tudo simplesmente acontece, mecanismo similar ao da própria fotografia. A máquina gera aquilo que lhe é ordenado em um impulso, um apertar de botões. Diferente das técnicas das artes manuais, o artista não necessita seguir nenhuma regra, nem existe uma demora para que a obra fique pronta, ele pode simplesmente sair fotografando que as captações são feitas. As ações vão sendo coordenadas por aquilo que os olhos vêem, a arte perde também a necessidade de tanto planejamento.



Dependendo da análise, este pode ser o fator que gera a insatisfação de Thomas. Com a perda da aura, o envolvimento com a obra em longa duração, os momentos se transformam em instantes e prazer da criação, tornam-se, de certa forma, lapsos, que te dão prazeres momentâneos,  mas logo realizados se tornarão uma massa de mesmices. As belas produções estéticas dos artistas não exercendo um valor cultual, são apenas a beleza, não geram um vínculo sentimental tão grande, perdendo de certa forma o valor quando após um tempo surge alguma outra coisa bela. Isso parece entediar o protagonista, ele mesmo diz, a propósito das lindas modelos que fotografa em uma passagem do filme, que “mulheres bonitas são bonitas, e apenas isso” e  depois fica “preso” a elas o resto do dia.

A busca por algo que faça sentido é tão grande, que Thomas retorna duas vezes à uma loja de antiguidades para resgatar o que antes a arte era para o criador, que hoje já não é mais. Ele na realidade não sabe o que procura, busca artefatos sem rumo, e mesmo quando encontra algo que realmente lhe interessa trata com desdém quando finalmente chega à sua residência.



Todo o cenário se transforma tanto com a chegada da fotografia que não é mais possível recuperar valores antigos, pois esses não fazem mais sentido em nossos tempos. No momento do filme em que Thomas conversa com a dona da loja de antiguidades ela lhe diz que está cansada de coisas velhas, que agora quer ir para outro lugar, ver coisas novas. Esse diálogo entre o fotógrafo e a antiquária põe em discussão, ao meu ver, justamente este lado ressaltado por Benjamin de que não adianta ficar preso em algo que já teve seus tempos áureos, devemos enxergar o mundo como hoje ele é e utiliza-lo da melhor forma possível. A vendedora, que é jovem, deseja, assim como a arte com valor de exposição, sair daquele lugar fechado, cultual, e obter uma troca com o mundo.

Já se esquecendo do objeto que adquiriu na loja de antiguidades, Thomas segue para o parque para fotografar, pelo simples prazer de fotografar, numa sequência de muitos disparos fotográficos, sem qualquer preocupação com o gasto de filmes, ou seja, dinheiro e planejamento. Esta atitude trata a arte reprodutível no seu nível mais prático, mostra que o artista não está interessado em realizar algo eterno, então suas tentativas são ilimitadas, ele pode disparar sua máquina inúmeras vezes, até encontrar na revelação a “foto perfeita”, diferente de seu amigo pintor, que parece se dedicar ao máximo em seu quadro inacabado.

Thomas então acaba capturando imagens de um casal, e logo descobre não ter sido muito desejado por ali. Este valor que o rosto dá a fotografia, é algo marcante, pois carrega de certa forma um vida consigo, a identidade de alguém. Segundo Benjamin, a fotografia, que foi a responsável por “destruir” a alma da obra de arte, é aquela que dentre as obras de reprodutibilidade técnica, possui maior resquício aurático.


No começo da história da fotografia, as fotos eram dependentes de maquinas e técnicas muito caras e, assim, era apenas para aqueles que possuíam uma boa condição financeira, ou, em momentos únicos, como na morte ou ida de alguém, como amores distantes. Essa dimensão única e especial conferiu aura à fotografia, pois, de certa forma, ela é insubstituível, e a única maneira de se conectar com aquela pessoa especial, dando-lhe um certo valor de culto e sagrado.

Assim, no momento que a mulher compondo o casal percebe ter sua face possivelmente capturada pela maquina fotográfica, entra em desespero, agregando todo esse valor de unicidade às fotografias batidas por Thomas. Logo se percebe pelo protagonista (e espectador do casal), que a mulher não queria atrelar sua própria imagem, que é única, aquele momento. Isso provoca uma grande mudança de perspectiva do protagonista com o seu trabalho, pela primeira vez no filme ele de fato cria um vínculo com suas fotos, e as trata com muito cuidado, pois elas tornam-se únicas.




O paradoxo do valor da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica é exibido no reencontro entre a mulher do parque e Thomas. Ela (Vanessa Redgrave) implora pelos negativos, surgindo entre os dois um jogo de sedução e poder. Até este momento, o valor de unicidade ainda é existente, porém, logo o rapaz consegue se livrar da moça ao entregar outros negativos, evidenciando a pura maximização, pois todos são idênticos. Como não faz diferença, um rolo de filmes se passa por outro, deixando por alguns instantes clara que esta arte não possui a chamada “aura”, pois este fato jamais seria possível ocorrer com a “Mona Lisa”, por exemplo.

De qualquer forma, aquelas fotografias ainda possuem seu valor, pois devido à rápida captação de imagens através da repetição de disparos mecânicos, algo único foi registrado,  o que não é possível na arte de técnica manual. As mãos jamais serão tão rápidas como uma máquina ou uma câmera filmadora, e esta característica corresponde a uma novidade tão incrível e de valor, que o autor do filme coloca-a como responsável pela captação de um crime que nem os olhos nus (humanos) foram capazes de enxergar.

Aí segue o clímax do filme, quando Thomas começa a reproduzir, gerar a arte, e ampliar tanto que o crime – a realidade – é evidenciado. Este momento mostra não apenas o alcance desta arte, além da do olho humano, como também como todo o processo técnico necessário está integrado à arte dessa era. A “prova” do ocorrido está obrigatoriamente ligada à reprodução da fotografia, e apesar do rapaz ter ido checar o corpo no parque, e visto com seus próprios olhos que de fato ele estava lá, quando as fotos somem misteriosamente de seu estúdio, junto aos negativos, ele perde toda a certeza do que foi ou não real.





Ocorre o dialogo com uma mulher que não fica claro ser amiga ou amante, onde ele diz à ela “eu vi um homem ser morto hoje”, e sendo indagado de como teria acontecido, responde “Eu não sei, eu não vi”. E esta mulher, que uma cena antes foi vista por Thomas tendo uma relação sexual com o pintor, diz a ele que a foto (a única que lhe restou) do corpo morto, um grande borrão tremido, parece um dos quadros do pintor. Não fica é esclarecido o triângulo, mas quando a moça se retira sem ter ajudado o protagonista, talvez seja um questionamento de que na realidade ambas as artes apesar de tão diferentes, acabam hoje cumprindo o mesmo papel. Pois tudo é arte, tudo é uma externalização pessoal com influência da realidade, que jamais serão de fato a realidade, mas fazem parte dela retratando um outro tipo de realidade.

Com as fotografias perdidas, sem o poder que estava em suas mãos, Thomas se encontra novamente no parque e na presença dos mímicos. Estes, que jogam tênis sem bola através de mímicas muito bem interpretadas, chamam a atenção do rapaz, que em certo momento é gestualmente solicitado a buscar uma bola imaginária que caiu fora do campo. Aceitando pegar o objeto, é como se entrasse finalmente naquele jogo e é ai que passa a de fato ouvir a bola, diferente do momento em que não viu o crime.




CONCLUSÃO


O filme apresenta diversos conceitos que dialogam com o texto do filosofo Benjamin e que nos levam a enxergar de forma real tudo o que ele expõe em seu ensaio. E este fato é mais uma das conclusões que a relação entre ambas obras atinge, pois nos esclarece como espectadores e nos orienta através do cinema. A noção do espectador é algo inteiramente ligado à era da reprodutibilidade, pois esta possui, como já visto, a necessidade de exposição tornando-se capaz de se comunicar com uma massa muito maior e atingir uma nova forma de relacionamento, que nos leva através da apreciação estética, formas de viver. É como se, mais uma vez, voltássemos a obter algo similar à narrativa, que dispõe de valores para guiar o homem e possui uma linguagem de tantas faces, que caminha ao longo das gerações.

Quando surgiu a fotografia os artistas perceberam toda sua potência, criando a “arte pura” como tentativa de preservar as “artes clássicas”, desenvolvendo um conceito de análise puramente técnica, da qual fotos não teriam como se enquadrar. O fato é que a técnica de reprodução já havia ocorrido e ganhava dimensão transformando a sociedade. Benjamin diz que o interessante não é tentar argumentar o que era ou não arte, e sim usufruir da melhor forma possível essa inovação, que só foi possível pela sociedade já haver se transformado.

Hoje, acaba ocorrendo de certa maneira a mesma situação. Ao invés de propor enquadrar o cinema em um estado de arte, e fazer teorias que tentam doar a ele uma aura, o interessante é compreender que isso não é possível, e é essa impossibilidade de agregar um valor do que já foi que aponta o cinema como atual, como “a novidade de nosso tempo”.

Michelangelo Antonioni parece explicitamente concordar com Benjamin que as mudanças ocorrem, muitas vezes são confundidas com algo de “ruim”, mas talvez seja apenas uma sensação de desconforto inicial, sendo aproveitado na realidade um momento de transformação apenas. Thomas coloca claramente para a moça que se desespera para obter as fotos: “às vezes precisa-se de um pouco de desastre para que as coisas se ajeitem”. Ele próprio vive uma crise, um dia especialmente intenso que o modifica por completo.

A meu ver o final do filme não dá uma resposta específica, deixa conosco, espectadores, o mesmo questionamento que o protagonista que nos guiou durante o filme, apresentando uma “realidade não real” e a arte. Afinal Thomas escuta o jogo dos mímicos, e nós assistimos ao filme, duas coisas que são em teoria uma cópia da realidade, mas se também é real o que estamos vendo, a arte talvez seja a vida em um diferente nível.  O momento em que o rapaz desaparece na cena final talvez seja o silêncio que nossa mente atinge naquele instante, em que não existem certas respostas, mas é um fato de que aquela arte conseguiu cumprir seu papel ao atingir sua existência mÁxima. “Blow up”, a ampliação máxima da potência fotográfica que levou um artista a descobrir um crime, e o filme executando o mesmo papel ao nos provocar como espectadores dessa história.

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