WESTWORLD: ALGUMAS COISAS QUE O FIGURINO NOS DIZ


(essa publicação contém spoilers.)


figurino the westworld | fashion costume design


Foi somente eu que tive a visão da personagem Pris ( Daryl Hannah ) de Blade Runner (1981 - Ridley Scott) se escondendo no meio dos bonecos de Sebastian (william sanderson), na cena da série The Westworld (2016) na qual Armistice (Ingrid Bolso Berdal) se esconde no meio dos anfitriões já desligados? Se assim for, as referências cinematográficas do seriado de J.J. Abrams vai além de sua fonte direta com o filme Westworld (1973), como na realidade é o que ocorre com as criações audiovisuais, além de artísticas, culturais, tecnológicas e científicas no geral. A constituição de novidades carregam fundos de relações com momentos e imagens precedentes a este próprio.

( imagem 1 e 2: cena seriado The Westworld - 2016; imagem 3: cena filme Blade Runner - 1981)



O seriado apresenta questionamentos similares ao citado Blade Runner (1981), como também 2001 - Uma odisséia no espaço (1968), AI (2001) e Her (2013) e muitos outros no que tange reflexões referentes às maquinas adquirindo consciência própria, e o ser humano lidando com as repercussões desta transformação.

Como "The Westworld" poderia, assim, pertencer ao futuro e ao passado? Além da temática da consciência e das tecnologias (que particularmente me cativaram nessa serie), a produção revive o clássico gênero western e a figura do cowboy. No que tange o figurino, muito pode ser dito. Em principio as roupas podem ser dadas como simples, já que justamente trata-se de um vestuário tantas vezes trabalhado, contudo, como bem disse Ane Crabtree, a figurinista da série, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph:

"Our job is costume, sure, it’s a shirt or a pair of pants but what it actually means is quite large".

O trabalho realizado por ela e sua equipe se baseia, segundo ela, principalmente em referências de fotografias originais da época. Todavia, podemos apontar aqui que as referências, tomadas como ponto de partida deliberadamente ou não, se constróem justamente nas figuras pré-existentes para que ocorra então, a desconstrução dessas e a reflexão de tudo que as constitui a partir agora, do pensamento contemporâneo à nós.

Ao assistirmos a produção fílmica de 1973, a diferença tecnológica se vê tanto no cenário futurista que é concebido por meio da direção de arte e cenografia, como também na definição da imagem, e na lógica que a trama se desenvolve. Enquanto na primeira abordagem o filme exibe uma visão mais catastrófica da inteligência das máquinas, voltadas puramente para o terror e uma violência "irracional", o seriado aponta para uma reflexão do que é a consciência, os sentimentos, até que ponto estes pertence ao humano, ao cérebro, e como isso tudo se liga até mesmo ao que seria deus: pois se o humano puder construir esses mesmos impulsos nervosos e de armazenamento de informações acumulativas, evolutivas, nas máquinas, então novos pensamentos filosóficos e científicos ganham nova vida.E, tudo isso é se não um reflexo de reais questionamentos que acontecem na própria cultura e sociedade humana.

Nesse sentido, o público de cinema e seriados (além de outras artes), busca - por um lado - também uma coerência e veracidade maior do que se exigiu no passado. Se a proposta for declaradamente de "fantasias", vale tudo, mas se a produção adentrar em temáticas mais científicas, as respostas precisam também possuir um embasamento equilibrado com o conhecimento disponível na atualidade. Não é atoa que o setor das tecnologias são altamente conectados ao audiovisual, pois ainda que seja para fazer "Harry Potter" ou "Game of Thrones", a elaboração dos cenários e das narrativas buscam construir mundos de imagens convincentes através de cromaquis tão bem feitos que já não se sabe mais se aquela cena foi gravada em uma locação ou estúdio.

No enredo ocorre o mesmo, e um exemplo disto é que no filme de 1973 não importa o que causou o bug nos anfitriões, e sim, que ele aconteceu e assim houve uma história. No seriado, ano de 2016, já é preciso que o espectador compreenda cientificamente o ocorrido, se não tudo pareceria falso.


E quanto a imagem, como dito, ocorre o mesmo. Podemos hoje, ver os poros da pele dos atores, a trama dos tecidos, a tridimensionalidade de uma poeira que levanta do chão. Crabtree conta que certos tecidos tiveram que ser confeccionados para dar autenticidade, as cores precisavam existir de fato no período (≈ 1800 - 1890), tudo, pelo que eu vejo, para dar ao espectador o mesmo que os participantes do parque exigem: sensação de realidade.

Por essa razão, acredito ser interessante um olhar mais atento a este figurino. Primeiramente, por estarmos falando de uma figura icônica do cinema que é o cowboy, ele esta no cerne da história do cinema e sua moda. Segundo, por termos um filme que dá origem a um seriado, e que pertence à uma década distinta da nossa, ou seja, oferece um campo de visão precedente e diferente quando aos pensamentos dominantes e técnicas cinematográficas/audiovisuais. E, em terceiro, porque através de The Westworld é possível compreender visualmente certos códigos de cada época: como que cada período incorpora na linguagem visual os questionamentos dessa temática. Ou seja, tanto a figura do cowboy como do s robôs acabam sendo renovados e assim fomentam novos arquétipos híbridos dentro da linguagem cinematográfica. É evidente que The Westworld não foi o primeiro filme nem seriado à construir essa confluência de gêneros e figuras emblemáticas dentro de sua trama, mas, na medida que na contemporaneidade estas são evocadas novamente e re-trabalhadas em sua aparência formal , esses códigos visuais da arte e figurino são também renovados e recordados pelo espectador e industria de cinema e similares.

Essa reflexão sugere assim não "normas taxativas", mas busca ressaltar tais referências e fontes próprias deste universo que vão se reciclando. Caso o interesse seja no gênero westerns "originário", a pesquisa será feita quanto ao período do cinema de 1920. Contudo, a cultura e as mídias não se fazem de simples repetições, mesmo quando nos voltamos para referências do passado a mente pensante esta inserida no hoje, e desse modo ocorre, inevitavelmente uma imagem nova. O figurino, que é responsável então por dar corpo, dar vida aos personagens que farão da história uma realidade em seu próprio mundo fictício, possui assim, uma grande parcela de tal responsabilidade, criando figuras que tem "vida própria" em nossa imaginação e na imaginação desse universo cinematográfico.

Quando assistimos o seriado The Westworld, encontramos, à vista disso, uma base já estabelecida do que está sendo proposto, e ainda que o espectador não sabia conscientemente disso, sua mente possui esses códigos e entende os questionamentos por conta desses terem sido já construídos ao longo da história da humanidade, neste caso, através do cinema.

Por exemplo, a figura do cowboy é "originariamente" um homem, e no filme de 1973 isso se mantém. No entanto, agora o seriado propõe uma inversão disso, passando a figura do herói para Dolores, uma mulher. Caso não fosse assim, caso a figura do cowboy não fosse inicialmente masculina, não havia nenhuma inversão ou ruptura, e colocar uma figura feminina como uma cowboy heroína não traria nenhum questionamento social e político. E, é através do figurino que encontramos aí o "grande" meio de promover tal mensagem: Dolores veste inicialmente vestidos, trajes romantizados, pois ela é uma mulher do século passado (nesse parque de diversões temático), e é uma vítima da vida. Logo, conforme ela vai despertando, vai entrando em contato com ela mesma e se descobrindo ao longo da história e desejando deixar esse papel de vítima, e optando por construir sua própria história (e temos muitos "poréns" que não vamos entrar), seu figurino muda: ela passa a se vestir como um cowboy, de calças, camisa, chapéu, e tudo mais que compõe o figurino dessa figura.

Essa imagem da mulher cowboy, não é nova. Ela foi já apresentada em outras produções anteriores, como em Butch Cassidy (1969) com a personagem Etta Place (Katharine Ross), que na história é quem assume todo o poder no meio das confusões de seus companheiros masculinos. Em The Westworld filme, de 1973, nós mal vemos a figura feminina, a não ser em papeis de secundários e figuras de prostitutas, nem mesmo a "donzela indefesa" existe, pois neste trata-se de falar do homem e das máquinas.

As figuras das mulheres e seus figurinos carregam outros exemplos, como as cores das roupas das moças do bordel, que são vivas e coloridas em contraposição das mulheres que trabalham na administração do parque, de tons mais contidos e menos vibrantes. As cores fazem uma alusão a "mulheres para diversão" dos homens (que também esta presente no filme, de modo distinto), e as cores mais sóbrias estão colocando elas a par de igualdade aos homens, que usam figurinos desses mesmos tons.



Alguns pontos falados na entrevista com Crabtree me trouxeram informações incríveis, que mesmo sendo detalhes, são fundamentais para que toda potência da série: o fato dos chapéus brancos para os mocinhos e negros para os bandidos, ser algo verídico no antigo oeste; o significado dos diferentes tipos de chapéus e como designar qual à cada personagem; a escolha das cores, como o azul da pureza para Dolores (ou seria como o vestido da Alice, que segue o coelho e encontra-se em uma outra realidade?), o fusca para Maeve, o verde para Clementine (Angela Sarafyan); o reflexo entre Anthony Hopkins e o menino (que é sua versão jovem) por meio dos figurinos semelhantes; entre muitas outras designações das quais o figurino se encarrega de comunicar.

Diversas reflexões são atraentes aos meus olhos no que tange esses paralelos que o seriado propõe, como: a abordagem renovada do despertar de androides; a parceria de Dolores e Willian (Jimmi Simpson), que me remete à um espírito a lá Bonnie e Clyde (1968); a desconstrução da figura do herói; a temática do vício à violência que a sociedade parece ter; dentre outras mais. Todavia essa publicação assume um papel reflexivo, e no que diz respeito ao figurino, vislumbra-se uma retomada na temática na qual possamos tratar a esse "novo cowboy" (?) e suas representações contemporâneas. Mas, vale ressaltar, que se por um lado nas tramas de Westworld (filme) e The Westworld (seriado) existe a intenção de criar histórias incríveis para o publico participar, o cinema (e similares) vem desta intenção também: levar o espectador a perder-se nas narrativas para logo, encontrar a si próprio.

#modanocinema

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